Bilinguismo e atraso na fala: mito ou verdade?

(Editado 300 vezes em menos de 24 horas; é assim a vida de mãe :p)

Sempre rodeado de livros em português, uma das ferramentas mais poderosas

Estudos científicos de instituições renomadas dizem que bilinguismo não causa atraso na fala! Mas já ouvi histórias de pai, mãe, educador e até de pediatra que afirmam que o bilinguismo causa confusão e atraso na fala sim. E agora, José?

Eu preferi confiar na ciência e em referências como Adam Beck, autor do livro “Maximize your Child Bilingual Skills” e Ana Lucia Lico, cofundadora e conselheira da ABRACE. Não conheço os filhos do Adam — nascidos e criados no Japão, com mãe japonesa e pai americano — mas conheço os filhos da Ana. O caçula foi meu aluno e é um dos exemplos mais bem-sucedidos de bilinguismo infantil que já vi.

Conheci o Lucas aos 10 anos de idade e ele me deixou (ainda deixa) encantada por transitar entre o português e o inglês com tanta naturalidade. Ele foi criado falando SOMENTE português com a mãe e somente inglês com o pai. Não teve atraso na fala e se identifica tanto com a cultura brasileira, quanto com a americana. Exatamente o que eu sonho para o meu filhote! Oremos!

Resolvi escrever este post para registrar os primeiros frutos de todo o investimento que tenho feito no bilinguismo do Daniel. Eu também só falo português com ele — desde o dia em que ele nasceu — e estou sempre pensando no tal do input, que é o conteúdo em português que ele recebe, basicamente só de mim. Como eu faço isso? Falando bastante com ele, mostrando e lendo livrinhos dos mais variados, ouvindo, cantando e dançando músicas brasileiras, assistindo a um pouquinho de TV também e me esforçando para colocá-lo em contato com outras crianças e adultos brasileiros.

Agora ele está com 1 ano e 10 meses e há um tempinho tem nos mostrado que já entendeu como funciona aqui em casa, onde usamos o método one parent, one language (um idioma para cada pai/mãe). Quando fala comigo, é cavalo, caminhão, água, leite, blusa, sapato e por aí vai. Quando fala com o papai americano, é horse, truck, water, milk, shirt, shoes etc.

O Daniel também já entendeu que a vovó paterna e outras pessoas ao nosso redor falam inglês e me deixou emocionada outro dia na escolinha de natação. Estávamos no cantinho de brincar e ele me mostrou/falou em português os animais que havia em um dos brinquedos: pato, vaca, porco (e mais um que não me lembro). Apareceu uma garotinha e ele imediatamente mudou pro inglês, falando com ela: duck, cow, pig… A menina foi embora em seguida (ela só queria pegar um livro) e ele voltou para o português: pato, vaca, porco… Riam de mim, mas deu vontade de chorar de tanta emoção (^o^)/

Alguns dias depois, ele traduziu para a avó paterna o que havia falado comigo e me emocionei mais uma vez: “não abre” / “no open”. Obviamente, uma criança nessa idade ainda não sabe conjugar verbos nem formar frases perfeitas. Ele quis dizer que não dá pra abrir a bandeja do cadeirão em que ele come. E não dá mesmo. Ela não abre 🙂

Sei que as tabelas de médicos são apenas uma referência, tanto as de altura e peso, quanto a dos chamados marcos do desenvolvimento infantil. Se os nossos filhos não se encaixam perfeitamente nessas tabelas, não necessariamente eles têm algum “problema”. Mas, do meu ponto de vista, elas servem de alerta sim — por exemplo, para consultar um especialista e tentar descobrir o mais rápido possível se é necessário tomar alguma providência (que pode ser mais simples do que se imagina) para ajudar a criança.

Ou pode ser uma indicação de que o desenvolvimento da criança vai bem. A fala do Daniel tem sido bem próxima do que diz a tal tabela. Desde quando começou a balbuciar e a pronunciar as primeiras palavras e, mais recentemente, frases (curtas).

Fico feliz de ver que esse desenvolvimento tem sido simultâneo, em português e em inglês. Ora mais forte em uma língua, ora na outra. Isso porque já tivemos momentos em que a exposição em português era dominante e outros em que o inglês ganhou força. Por exemplo, quando ele entrou na aula de natação e depois na pré-escola (apenas 3 vezes por semana, três horas e meia por dia) o inglês deu um salto. Ou melhor, dois :p

Mas lá estava eu para não deixar o português estremecer. E, até o momento, não estremeceu. Ufa!

Moral da história: eu já desconfiava e cada vez mais acredito que os cientistas estejam certos. Será que o atraso na fala de algumas crianças bilíngues não está relacionado a outros fatores? Muitas vezes simples de serem resolvidos? Ou, quem sabe, nem pode ser considerado atraso — lembrando que cada criança tem seu tempo? O que vocês acham? Esse assunto dá pano pra manga, né?

O que o Daniel tem dito em português ultimamente

Animais: cachorro, urso, gato, cavalo, galinha, peixe, golfinho, pintinho, zebra, porco, coelho, cobra, elefante, sapo, jacaré, passarinho, tartaruga, macaco, vaca, panda, pato, dinossauro;

Comidas e bebidas: água, leite, arroz, carne, feijão, cenoura, sopa, macarrão, biscoito, aveia, banana, maçã, uva, passas, queijo, bolo, laranja, almôndega, cebola, cogumelo, batata, milho, salada (e não significa que ele coma só isso :p);

Vestuário: blusa, calça, sapato, bota, meia, casaco, chapéu, pijama, óculos;

Cores: azul, vermelho, verde, amarelo, laranja, rosa;

Partes do corpo: olho, nariz, boca, cabelo, barriga, bumbum, mão, pé, dedo, dente, orelha, língua;

Outros: copo, bola, livro, planta, chuva, banheiro, xixi, cocô, música, gostoso, Brasil, Molly, mamãe, papai, vovó, Davi, caminhão, vizinho, trator, carro, avião, luz, Saci, boto, caminhão de lixo, lixo, abraço, fralda, coração, balão, portão, família, bom dia, tchau;

Frases/verbos/expressões: lavar mão, sobe, desce, comer, ver, pra cima, pra baixo, mais arroz, mais leite — ou mais qualquer outra coisa –, não, da mamãe, do papai, do Dani, da Molly — ou sapato da mamãe, caminhão do Dani, casaco do papai etc –, vovó do Brasil, vê televisão, não televisão, não mexe, senta, abriu Molly (que significa abrir a porta do quintal pra nossa cadela, Molly, entrar), tá escuro, ascende a luz, fazer bolo, vídeo do Davi, papai chegou, dormir, mamadeira, caminhonete, caminhão do vizinho, ah menino, caiu, a vaca caiu, dormiu carro, tá frio, passear, esse é…, isso é…, achou, lá fora, mamãe tá aqui, carinho Molly;

Músicas: Super (“Superfantástico”, Balão Mágico), Nariz (“Ai Meu Nariz, Balão Mágico), Gante (“O Gigante”, Tiquequê), Formiguinha (Antes era a música “Forminguinha”, do Patati Patatá, agora é a “Se eu fosse”, do Tiquequê que também tem uma formiguinha), Urso (“Ursinho Pimpão”, Balão Mágico), Vagarinho (“Vagarinho”, Palavra Cantada).

Observações

1 – Obviamente, ele ainda não pronuncia perfeitamente todas as palavras. Algumas são bem nítidas, outras não. Exemplo: em vez de girafa, ele fala “gifa”, em vez de nariz, ele fala “naiz”, em vez de lixo, ele fala “ixo”, entre outras fofices.

2 – Alguns tópicos ele sabe muito mais em inglês. Exemplo: ele fala e sabe identificar diversos tipos de caminhões, carros e tratores (firetruck, garbage truck, tractor, digger, dump truck, police car, ambulance, school bus). Outro exemplo: ele fala thank you e sorry com frequência, mas raramente fala obrigado e desculpa @_@

3 – Faltou comentar que ele está na fase “papagaio”. Repete tudo o que a gente diz, mesmo quando ele não entende o significado. Seja em inglês (não eu, claro) ou em português. Algumas frases que me lembro agora: a fish in there; trucks on the wall; have some milk; watch your head; sit down, buddy; nossa senhora…

4 – Quando entrou na escolinha, com 1 ano e 5 meses, ele era o mais novo numa classe de nove crianças de até 3 anos de idade. A professora quis saber se ele falava mais português em casa, porque ele sabia pouco inglês em comparação aos coleguinhas e/ou demais crianças da idade dele. Fiquei feliz por ela não considerar isso um problema. Poderia ser “atraso” no inglês, mas não era atraso na fala, porque naquele momento o vocabulário dele parecia maior em português. Ele não sabia falar water, nem milk, nem shoes, por exemplo. Mas falava água, leite e sapato.

Por sorte, a professora assistente fala espanhol e entendia o que ele queria dizer. E a professora titular, de qualquer maneira, me pediu uma lista de palavras em português que ele costumava falar. Pouco tempo depois, o inglês dele já estava bem mais rico e ele começou a falar cada vez mais em sala de aula. Detalhe: mesmo quando ele falava pouco, segundo a professora, ele não tinha dificuldade de se comunicar nem de se relacionar com os demais. Por isso, tanto eu quanto ela ficamos super tranquilas e não vimos nenhum sinal de preocupação.

5 – Tentei postar um vídeo aqui, do Daniel falando, mas não consegui. Pra quem tiver interesse, tenho postado no meu Instagram @meujapao_minhaamerica e está nos meus planos estrear em breve o @alinguadamamae 😉

(Atualizei o post “300” vezes em menos de 24 horas, porque não consigo escrever tranquilamente com a rotina de mãe, porque não quis deixar de registrar o que me lembrei depois e, principalmente, porque quero que fique claro que a minha intenção não é julgar, criticar, desanimar nenhuma mãe ou pai. Muito pelo contrário! A minha mensagem é “não tenha medo do bilinguismo”. E acho que compartilhando experiências a gente consegue enxergar melhor as coisas e ajudar uns aos outros).

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